#TutuTuesday colorida

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Na terça-feira passada, buscando fotos para colocar nas redes sociais para a #TutuTuesday, me deparei com a imagem de uma mini bailarina que, na postagem de sua mãe orgulhosa, perguntava se tinha dançado tão bem quanto Misty Copeland.

Ava ballerina
A pequena Ava após sua primeira apresentação (Foto: Reprodução)

E sim, essa menina, a pequena Ava Elyse Johnson, de seis anos, é negra – que nem Misty Copeland. O que, infelizmente, ainda é algo fora do comum quando se trata de ballet. Talvez por isso a foto tenha me chamado a atenção – uma garotinha negra se espelhando em uma grande bailarina, também negra. E toda a conversa sobre representatividade (que a gente volta e meia fala aqui no blog) voltou a fazer sentido.

Falei com a mãe dela, Chrysanthé, e ela topou me contar um pouquinho de como Ava se apaixonou pela dança, e se os palcos um pouco mais coloridos tiveram alguma influência nisso. Para dar um contexto, Ava e sua família são dos Estados Unidos, moram na Filadélfia e têm laços fortes com a igreja – nos EUA, assim como em algumas igrejas aqui no Brasil, é comum ter oficinas de artes para a comunidade. Muitos talentos são revelados justamente em corais ou grupos de dança.

Misty Copeland como Odette. Foto: Reprodução/ The Guardian
Misty Copeland como Odette. Foto: Reprodução/ The Guardian

“Percebemos desde quando Ava era muito pequena que ela era uma dançarina nata. Ela começou a mostrar potencial para ser bailarina e atleta desde os dois anos de idade. Se você passar mais do que cinco minutos com ela vai vê-la andando e girando na pontinha do pé. Nunca com a sola no chão (risos). Me senti na obrigação de matriculá-la  numa escola de ballet assim que ela chegou à idade mínima”, disse.

A escolha dessa escola de dança foi bastante meticulosa, segundo Chrysanthé. Ela disse que, já que a família passa boa parte do tempo em ambientes em que são minoria, era importante para ela que Ava pudesse se desenvolver artisticamente com crianças que se parecessem com ela. A eleita foi a Philadanco!, uma academia com uma diversidade étnica muito interessante e que também conta com uma companhia. Vale a pena dar uma olhadinha no site!

Claro que a formação dos pais também tem um impacto direto na formação dos filhos, e, no caso de Ava, isso foi bem positivo. Chrysanthé disse que dançou quando mais nova, embora não ballet clássico (ela dançava ritmos Afro-Caribenhos) e comentou que o gene do atletismo corria solto na família. Ou seja, era uma questão de tempo para Ava se interessar por alguma atividade.

Alison Stroming
Alison Stroming (Foto: John F Cooper)

Mas o interesse dos pais na formação artística dos filhos não para aí: é importante você ter modelos para se apresentar aos pequenos. E isso é um pouquinho mais complicado, especialmente quando falamos em representatividade.

A criança quer se identificar com seus ídolos. No ballet, mais especificamente, até pouquíssimo tempo atrás não existiam bailarinos e bailarinas negros nas grandes companhias internacionais. E agora, com uma nova geração de estrelas, como Misty Copeland, Michaela DePrince, Precious Adams,  e, mais recentemente, as brasileiras Ingrid Silva e Alison Stroming, isso está começando a mudar.

“Acho que essas bailarinas estão tornando o caminho mais fácil para nós. Elas estão inspirando jovens bailarinas, como minha filha, a ser quem elas são mesmo quando o mundo tenta negar isso a elas. E elas estão quebrando barreiras de uma forma que fica difícil para elas e tantas outras bailarinas negras passarem desapercebidas pela mídia comercial americana e o mundo do ballet”.

Claro que essa representatividade ainda é muito pequena, que existe racismo nas companhias e que a desproporção entre negros e brancos no ballet ainda é gigantesca. Mas já está rendendo frutos – como Ava, por exemplo. Ainda assim, perguntei a Crysanthé o que podemos fazer para acelerar esse processo.

“Temos que continuar expondo nossos filhos a esses artistas e falando sobre eles na mesa de jantar, consumindo seus produtos, guardar dinheiro para apresentações ao vivo sempre que possível… Não podemos quebrar barreiras se nos limitarmos a fazer o que a sociedade associa com raça e gênero. Somos capazes de muito mais e é importante que nossos filhos vejam isso”.

Colorindo os palcos

Ano passado a gente fez um post aqui exaltando a iniciativa da International Association of Blacks in Dance (IABD)de se fazer uma audição apenas para bailarinas negras – notadamente excluídas das grandes companhias. Pois bem, a audição foi em janeiro, pouco se falou do que aconteceu, e só agora, em março, eu resolvi procurar saber do resultado.

Isso graças à leitora e amiga Ila Garcia, que me mandou essa foto aqui (a seleção toda é incrível, mas essa me tocou de forma especial) que me fez pensar que essas pequenas podem, quem sabe, ser a próxima Precious Adams, Michaela DePrince ou mesmo Misty Copeland. Obrigada, Ila!

menininhas
Meninas da primeira e única escola de ballet em Ruanda, criada após o genocídio (Foto: Caroline Jean Peixoto, City Arts)

Voltando à audição! A IABD fez um vídeo sobre a seletiva, entrevistando algumas das participantes e jurados, e mostrando pedacinhos das audições. O formato foi exatamente igual ao das grandes companhias, com a diferença que eram meninas e moças de várias tonalidades executando os passos de ballet clássico. O evento foi em Denver, Colorado, e juntou 87 bailarinas do mundo inteiro e contou com a participação de 15 companhias.

Para quem não entende inglês, selecionei aqui alguns dos depoimentos mais bonitos. “Sabe, muita gente não sabe, mas é muito difícil entrar numa sala de audição e ser a única negra brigando por uma vaga. Mas quando você entra numa sala e vê garotas com o mesmo tom de pele que você tem é uma sensação incrível”, disse Raquel Smith, da Califórnia.

“É a primeira vez que o mundo do ballet entrou na comunidade negra de dança. E chegou no nosso próprio espaço, onde nós somos os protagonistas para falar com propriedade dos problemas que nós temos e que compartilhamos”, apontou Theresa Ruth Howard, criadora do MoBBallet.org. Ela ainda disse que uma grande falha na estrutura dos grandes ballets é que não há diretores artísticos, maîtres ou masters de ballet negro, que são justamente as pessoas que moldam a estética da companhia. Sem essas pessoas, como isso pode mudar?

“Ao crescer como bailarina eu fui a várias audições, nas quais eu era quase sempre a única afro-americana na sala. De certa forma, dança é algo universal, então eu não achava que não poderia dançar ballet clássico. Mas depois de um tempo você começa a notar que a cor da pela pesa mais do que o talento, não tem como não ver, e isso acabou me cansando”, disse Coral Martin, também da Califórnia.

“Espero que um dia a gente não precise disso. Espero que um dia seja algo tão normal que não precisemos forçar as pessoas a abrir os olhos” Brian MacSween, ballet master do Memphis Ballet. No final, 25 bolsas foram oferecidas e quatro meninas foram convidadas para seletivas de companhias que participaram da audição. Saldo pequeno, porém positivo!

Veja o vídeo aqui: