#TutuTuesday colorida

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Na terça-feira passada, buscando fotos para colocar nas redes sociais para a #TutuTuesday, me deparei com a imagem de uma mini bailarina que, na postagem de sua mãe orgulhosa, perguntava se tinha dançado tão bem quanto Misty Copeland.

Ava ballerina
A pequena Ava após sua primeira apresentação (Foto: Reprodução)

E sim, essa menina, a pequena Ava Elyse Johnson, de seis anos, é negra – que nem Misty Copeland. O que, infelizmente, ainda é algo fora do comum quando se trata de ballet. Talvez por isso a foto tenha me chamado a atenção – uma garotinha negra se espelhando em uma grande bailarina, também negra. E toda a conversa sobre representatividade (que a gente volta e meia fala aqui no blog) voltou a fazer sentido.

Falei com a mãe dela, Chrysanthé, e ela topou me contar um pouquinho de como Ava se apaixonou pela dança, e se os palcos um pouco mais coloridos tiveram alguma influência nisso. Para dar um contexto, Ava e sua família são dos Estados Unidos, moram na Filadélfia e têm laços fortes com a igreja – nos EUA, assim como em algumas igrejas aqui no Brasil, é comum ter oficinas de artes para a comunidade. Muitos talentos são revelados justamente em corais ou grupos de dança.

Misty Copeland como Odette. Foto: Reprodução/ The Guardian
Misty Copeland como Odette. Foto: Reprodução/ The Guardian

“Percebemos desde quando Ava era muito pequena que ela era uma dançarina nata. Ela começou a mostrar potencial para ser bailarina e atleta desde os dois anos de idade. Se você passar mais do que cinco minutos com ela vai vê-la andando e girando na pontinha do pé. Nunca com a sola no chão (risos). Me senti na obrigação de matriculá-la  numa escola de ballet assim que ela chegou à idade mínima”, disse.

A escolha dessa escola de dança foi bastante meticulosa, segundo Chrysanthé. Ela disse que, já que a família passa boa parte do tempo em ambientes em que são minoria, era importante para ela que Ava pudesse se desenvolver artisticamente com crianças que se parecessem com ela. A eleita foi a Philadanco!, uma academia com uma diversidade étnica muito interessante e que também conta com uma companhia. Vale a pena dar uma olhadinha no site!

Claro que a formação dos pais também tem um impacto direto na formação dos filhos, e, no caso de Ava, isso foi bem positivo. Chrysanthé disse que dançou quando mais nova, embora não ballet clássico (ela dançava ritmos Afro-Caribenhos) e comentou que o gene do atletismo corria solto na família. Ou seja, era uma questão de tempo para Ava se interessar por alguma atividade.

Alison Stroming
Alison Stroming (Foto: John F Cooper)

Mas o interesse dos pais na formação artística dos filhos não para aí: é importante você ter modelos para se apresentar aos pequenos. E isso é um pouquinho mais complicado, especialmente quando falamos em representatividade.

A criança quer se identificar com seus ídolos. No ballet, mais especificamente, até pouquíssimo tempo atrás não existiam bailarinos e bailarinas negros nas grandes companhias internacionais. E agora, com uma nova geração de estrelas, como Misty Copeland, Michaela DePrince, Precious Adams,  e, mais recentemente, as brasileiras Ingrid Silva e Alison Stroming, isso está começando a mudar.

“Acho que essas bailarinas estão tornando o caminho mais fácil para nós. Elas estão inspirando jovens bailarinas, como minha filha, a ser quem elas são mesmo quando o mundo tenta negar isso a elas. E elas estão quebrando barreiras de uma forma que fica difícil para elas e tantas outras bailarinas negras passarem desapercebidas pela mídia comercial americana e o mundo do ballet”.

Claro que essa representatividade ainda é muito pequena, que existe racismo nas companhias e que a desproporção entre negros e brancos no ballet ainda é gigantesca. Mas já está rendendo frutos – como Ava, por exemplo. Ainda assim, perguntei a Crysanthé o que podemos fazer para acelerar esse processo.

“Temos que continuar expondo nossos filhos a esses artistas e falando sobre eles na mesa de jantar, consumindo seus produtos, guardar dinheiro para apresentações ao vivo sempre que possível… Não podemos quebrar barreiras se nos limitarmos a fazer o que a sociedade associa com raça e gênero. Somos capazes de muito mais e é importante que nossos filhos vejam isso”.

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Osipova: “Ainda estou aprendendo a língua da dança contemporânea”

Uma das bailarinas clássicas mais experientes, expressivas e bem-sucedidas da sua geração, a russa Natalia Osipova, de 30 anos, embarcou numa nova experiência profissional e pessoal: junto com o namorado, o também bailarino-estrela Sergei Polunin, se apresenta numa produção contemporânea, Silent Echo, assinada pelo coreógrafo Russell Maliphant.

Curioso que até mesmo para bailarinos profissionais, como é o caso de Osipova, a transição ou aprendizado de novas formas de se expressar na dança podem ser desafiadoras.

A prima ballerina fala sobre a participação na produção, como é dançar com Sergei e as diferenças entre dança clássica e contemporânea na entrevista que traduzimos abaixo. Confira!

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Natalia Osipova, Sergei Polunin,
Osipova e Polunin em Run Mary Run, de Arthur Pita (Foto: Bill Cooper/Sadler’s Wells)

Qual foi o motivo para embarcar num espetáculo com trabalhos contemporâneos e não de ballet clássico?

Eu sempre fui interessada pela dança contemporânea – mesmo na escola de ballet eu já acompanhava. Além disso, quando alguém dança ballet clássico por muitos anos, tem que ‘apimentar’ as coisas de vez em quando, então eu opto por fazer coisas diferentes. De certa forma, faz parte de uma busca criativa. Eu não diria que estou entediada com repertórios de ballet, apenas gosto de aprender novas linguagens na dança, também.

Como o espetáculo tem sido recebido?

Como sempre, teve críticas boas e ruins. Não consegui extrair objetivamente o que as pessoas não gostaram nas críticas ruins, e não porque eu não atente para críticas – é uma profissão bem difícil e estou acostumada a todos os tipos de críticas – mas eu não me atenho a cada detalhe para depois tentar reconciliar na dança.

Cada peça foi criada especialmente para você. No Festival Internacional de Edimburgo, na Escócia, o público ficou impressionado com Silent Echo, de Russell Maliphant. O quão envolvida com esse trabalho você esteve?

Eu normalmente não interfiro, mas dessa vez eu me encontrei com Russell e nós conversamos, e ficou claro desde o início que eu dançaria com Sergei. Mas o resto ficou a critério dele. Nessa esfera contemporânea eu confio no coreógrafo, enquanto que no ballet clássico eu posso discutir um pouco mais com o coreógrafo para introduzir minhas próprias idiossincrasias.

Não seria porque você é nova na dança contemporânea e menos confortável com ela?

Ballet clássico é minha língua materna, então sempre tem espaço para que eu entregue algo meu. Na dança contemporânea eu simplesmente não sinto que estou no nível de poder dar opinião. Ainda estou aprendendo essa linguagem.

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DANCERS;
Natalia Osipova, Sergei Polunin,
Polunin e Osipova em Run Mary Run (Foto: Bill Cooper/Sadler’s Wells)

Quando foi que você e Sergei Polunin se conheceram?

Nos conhecemos cerca de um ano e meio atrás, quando dançamos Giselle no Scala de Milão. O partner que estava escalado para dançar comigo ficou doente, então pedi a ele para aceitar o papel. Tinha uma coisa diferente no ar sobre dançar com Sergei. Minha mãe até falou que ele poderia ser um partner interessante. Então, de certa forma, estava nas cartas.

Você deve ter ouvido que Sergei era chamado de “o bad boy do ballet” quando rumores de chiliques nos bastidores e fora dos palcos apareciam com frequência associados ao nome dele. Como você achava que seria trabalhar com ele?

Eu certamente ouvi a reputação de Sergei antes de trabalhar com ele, mas eu entendo bem como algumas coisas, muitas vezes, são exageradas. Por isso não prestei muita atenção. No final das contas, eu não ia dançar com a reputação dele. Eu ia dançar com a pessoa.

E como ele é?

Eu o conheci depois que ele ganhou essa reputação de “bad boy”, então eu só posso julgar o que conheço dele agora. Ele realmente fala o que pensa. Mas a pessoa com quem eu trabalho e com quem estou é consciente e genuína. Ele está, possivelmente, mais calmo agora. O que aconteceu antes aconteceu por motivos reais. Ele se comportou de uma forma sincera, não houve teatralidade desnecessária.

Deve ser difícil manter um relacionamento quando vocês trabalham em companhias diferentes e estão sempre viajando em turnê. Essa produção foi, ao menos em parte, uma forma de vocês passarem mais tempo juntos?

O espetáculo já estava criando forma quando a gente se conheceu, então não foi pensado para que a gente dançasse juntos. Foi uma feliz coincidência.

Qual é a melhor e a pior parte de dançar com seu companheiro?

A pior parte é que qualquer desentendimento ou crítica num ensaio é mais aberto, por isso há conflitos. Como eu sou uma mulher jovem, às vezes é fácil para mim ceder a esses conflitos, e às vezes eles se estendem um pouco às nossas vidas pessoais. O lado positivo, por outro lado, é óbvio. A sensação de estarmos no palco juntos, dançando juntos, criando algo juntos é incomparável.

 

Silent Echo está em turnê pelos Estados Unidos desde 27 de outubro, em Los Angeles.

A entrevista original, que saiu na Pointe Magazine, você pode conferir aqui.

Gabriel Matheó: “O Bolshoi não forma apenas bailarinos”

A Bahia está danada para mandar bailarinos para fora do Brasil! O mais novo é Gabriel Matheó Bellucci, formado pela Escola Bolshoi e ex-bailarino da companhia da escola, que bate as asas rumo à Europaballett, na Áustria.

Conversamos um pouquinho com ele para saber como foi sua preparação aqui na Bahia e de que forma sua formação no Bolshoi contribuiu para que ele tivesse uma projeção internacional tão rápido. O que percebemos foi muito carinho e reconhecimento tanto à Escola Bolshoi quanto à Academia de Dança Adalgisa Rolim, onde ele deu os primeiros passos no ballet clássico. E, assim como muitos bailarinos, Gabriel pensa em voltar ao Brasil para ensinar e contribuir para o melhorar o cenário de dança que o formou.

Como foi que você conheceu a dança? Qual foi a academia daqui da Bahia que te “revelou”?

Na minha escola em Villas do Atlântico (zona metropolitana de Salvador) existe uma gincana anual onde os alunos de cada ano se organizam e criam coreografias, cartazes, apresentações de teatro etc. Foi meu primeiro contato com a dança, mas nada profissional. Quando tinha 10 anos fui matricular minha irmã na Academia de Dança Adalgisa Rolim, e acabei fazendo uma aula experimental. Resultado: ela saiu meses depois e eu fiquei, durante quatro anos. Foi lá que dei meus primeiros passos com o ballet clássico e jazz. Foi uma época muito importante, tia Gisa me deu bolsa nesses quatro anos e a ela sou muito grato por ter me encaminhado futuramente pro Bolshoi e por ter me orientado desde o comecinho.

Quando foi que você decidiu se tornar profissional? Qual o impacto que a escola do Bolshoi teve na sua vida?

Em 2010 participei da audição do Bolshoi no concurso Ballace em Camaçari e fui aprovado com bolsa integral. Até me formar eu não tinha ideia do quanto o Bolshoi tinha me dado, tanto tecnicamente (por ser uma escola de método russo, Vaganova, a excelência cobrada é altíssima) quanto psicologicamente. O Bolshoi não forma apenas bailarinos, lá aprendi a ter disciplina, zelo, paciência, respeito, persistência, força … É uma rotina muito puxada, estudava pela manhã, e fazia aulas à tarde. Sem ter passado por isso, hoje, não estaria indo pra Europa, não teria conhecido artistas com almas tão bonitas e talentos excepcionais, sou muito grato por tudo que aprendi na minha época de Escola Bolshoi.

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Gabriel em apresentação no Bolshoi (Foto: Acervo pessoal)

Você está realizando o sonho de muitos bailarinos e bailarinas brasileiros, que é dançar numa companhia internacional. Como foi que você chegou à audição?

Ano passado quando me formei na escola, fui contratado pela companhia jovem Bolshoi Brasil, que é o primeiro contato profissional que nós, ex-alunos, podemos ter assim que nos formamos. Até ano passado eu era aluno formando, esse ano fui funcionário e pude conhecer um outro lado da escola, tão rígido quanto antes, porém com um tratamento diferente. A cia jovem me trouxe muita experiência artística ou “de palco” como a gente chama. Em agosto fui pra Áustria fazer audição e passei, voltei pro Brasil há duas semanas (final de agosto) para finalizar meu período com o Bolshoi e viajo para a Áustria dia 6 de setembro para começar uma nova etapa.

Outros bailarinos que saíram do Bolshoi – como a também baiana Mariana Miranda – também estão a caminho de companhias fora do país. Acha que é uma tendência?

Com certeza é uma tendência e um desejo de muitos. Somos preparados e treinados pra isso. No Brasil sabemos o quanto é difícil em viver da arte em geral, então somos “obrigados” a buscar oportunidades fora do país.

Quais são seus planos pro futuro? Pensa em voltar a dançar aqui no Brasil?

Por enquanto quero passar algum tempo fora ainda, viajando e conhecendo novas companhias e novas cidades. A carreira em cima dos palcos é curta, então temos que aproveitar o máximo, pra depois trabalhar no “bastidores” dando aula, ensaiando, repassando o que um dia nos foi ensinado.

Quer ler mais entrevistas? Clique aqui!

Márcia Jaqueline: “O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é feito de tradição”

Primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Márcia Jaqueline é uma das bailarinas brasileiras mais bem-sucedidas aqui no país. Ela começou seus estudos de ballet clássico na Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e, aos 14 anos de idade, formou-se e foi logo chamada pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro (TMRJ) para trabalhar como bailarina estagiária. O convite partiu do então diretor Jean-Yves Lormeau. Ela foi tão bem que, dois anos depois, foi contratada para o corpo de baile do TMRJ – instituição que ela nunca deixou. Aqui ela fala um pouquinho sobre sua carreira, com o é ser dançarina no Brasil, momentos marcantes no palco e fora dele… E algumas coisinhas a mais!
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Márcia Jaqueline como Kitri, em Dom Quixote
Ser primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é coisa para poucas. Acha que o cargo vem com um ‘peso’ da tradição?
Com certeza, eu estou numa companhia onde Bertha Rosanova foi primeira bailarina, e outros grandes nomes da dança brasileira, como Cristina Martinelle, Aurea Hammerli, Nora Esteves, Ana Botafogo, Cecília Kerche…O Theatro Municipal é feito de tradição e ser primeira bailarina hoje me faz querer continuar escrevendo essa história que há anos vem sendo construída, sempre respeitando os que começaram esse trabalho.
Muitos bailarinos e bailarinas brasileiros estão decidindo sair do país para conseguir apostar em suas carreiras. Continuar no Brasil é um ato de resistência?
Eu acho que não somos valorizados o tanto que merecemos. Os bailarinos que estão aqui são incríveis, mas estamos sempre precisando superar alguma dificuldade que nos é colocada. Sempre nos é dito que não somos prioridade. Claro que estamos muito defasados em várias áreas, como educação e saúde, mas há muito tempo se ouve que vão priorizá-las também e não vejo melhorias. Se até lá demora, então até chegar alguma melhoria na cultura acho que vai demorar muito ainda. Isso se chegar um dia. Por isso tantos talentos indo embora, e nós que ficamos, fazemos porque amamos nosso Theatro, nosso público – esses sim, nos dão força pra continuar.
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Foto clássica Giselle, no segundo ato do ballet

 

Você já pensou em dançar fora?

Eu nunca pensei, não, sempre quis fazer carreira aqui e dançar para os que eu amo.  E também nunca quis ficar longe da minha família. Nossa carreira não é fácil, todo dia temos que provar que somos capazes, são muitas dores,  às vezes decepções. Longe deles, que são meu alicerce, eu não conseguiria.
Sua história com o ballet começou muito cedo, aos três anos – e aos 14 você começou sua carreira no TMRJ. Você sempre quis ser bailarina?
Dos três aos nove anos eu fazia jazz, nunca pensei em ser bailarina profissional, não. A paixão veio quando entrei para a Escola de Danças Maria Olenewa. Ali eu estava tão pertinho dos bailarinos do Theatro, assistindo os balés, aí sim a vontade foi crescendo dentro de mim.
Todos os grandes dançarinos tiveram – ou têm – grandes mestres. Quem foi que mais te marcou enquanto aluna?
Três professoras me marcaram enquanto aluna, porque além de me ensinarem, cuidaram de mim como uma filha também. Tia Edy (Edy Diegues), tia Amelinha (Amelia Moreira) e tia Regina (Regina Bertelli). As duas últimas não estão mais nesse mundo, mas tia Edy continua sempre comigo, me liga sempre, nunca esquece meu aniversário, e sempre que nos falamos diz que estou sempre em suas orações.
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Márcia como Nikyia, em La Bayadère

Na sua carreira você já dividiu o palco com várias estrelas – uma delas foi Marcelo Gomes, no ano passado, quando dançaram O Quebra-Nozes. Tem algum momento que você considere como o mais memorável da sua vida na dança?

Foi incrível dançar com Marcelo, com certeza umas das experiências mais incríveis da minha carreira. Eu tive vários momentos memoráveis, cada balé que me é dado é um desafio, que quando dançado fica guardado pra sempre. Tem um momento muito especial sim, foi em Romeu e Julieta, que foi remontado por Marcia Haydée. Passei dois meses com ela na sala ensinando o balé. Eu já admirava muito  toda sua história e carreira, mas fiquei mais encantada ainda com sua generosidade. Ela passava cada detalhe, cada sentimento, e quando ela mostrava alguma cena, era um momento de pura emoção – muitas vezes não conseguia segurar as lágrimas. É uma verdadeira diva, sou muito fã.
Você tem algum sonho não realizado? Qual é?
As coisas que sonhei quando estudante de balé , eu realizei. Claro que sempre quero mais! Acho que não um sonho, mas um desejo, é dançar mais fora do Brasil. Sonho, eu tenho um sim, mas isso mais pra frente, quando estiver parando de dançar. Não posso contar ainda.
Um pouquinho de Márcia Jaqueline em cena! Ela e Cícero Gomes no pas de deux d’O Quebra Nozes no TMRJ.
*Todas as fotos foram tiradas do site oficial de Márcia Jaqueline

Alison Stroming: “Adoraria dançar e ensinar no Brasil”

Uma das bailarinas mais promissoras de sua geração, a brasileira radicada nos Estados Unidos Alison Stroming quer mais do que ser apenas uma estrela do ballet: ela quer fazer a diferença. Nascida no Recife (PE), ela foi adotada aos quatro meses de idade por um casal americano e, desde então, só voltou ao Brasil uma vez. No que depender dela, isso vai mudar! Além de dançar, Alison quer treinar pequenas bailarinas na sua cidade natal, e trazer para o Brasil a inclusão na dança (algo que discutimos muito por aqui!).

Calma que tem mais: ela ainda fala da importância de companhias como Alvin Ailey e Dance Theatre of Harlem, onde ela dança, duas das mais importantes instituições dos Estados Unidos e que têm uma base muito forte na cultura e dança negras e afro-americanas. Para ela, isso (junto ao apoio às artes) permite que os Estados Unidos estejam vivendo uma onda de diversidade e pluralidade na dança.

Segue a nossa entrevista!

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Alison em ensaio para o Ballet Zaida (Foto: Reprodução / Ballet Zaida)

Quantos anos você tinha quando começou a dançar? E como foi sua carreira até agora?

Eu comecei a dançar aos dois anos de idade. Eu tenho quatro irmãos mais velhos que dançaram em algum ponto de suas vidas, então minha mãe me colocou na aula de dança achando que seria um hobby legal para mim e nunca achou que seria algo a mais.

Enquanto menina eu pratiquei vários esportes e fiz um monte de atividades extracurriculares, mas dança sempre foi minha favorita.

Eu tinha nove anos quando comecei a treinar na School of American Ballet (SAB). Eu me apaixonei pelo ballet e soube desde pequena que eu queria ser uma bailarina. Eu estudei na SAB por três anos e depois fui para a Divisão Junior da Escola de Ballet Jacqeline Kennedy Onassis (JKO), onde continuei minha educação até eu me formar.

Desde que me formei na escola e na JKO na American Ballet Theatre, eu tive a sorte de ter meu primeiro contrato de corpo de baile na Alberta Ballet, no Canadá. Eu dancei no Alberta Ballet por dois anos participando de produções de George Balanchine, Kirk Peterson e vários outros coreógrafos canadenses. Eu tive a oportunidade de me apresentar com a artista Sarah McLachlan em seus concertos por Toronto, o que foi uma experiência incrível. Então, fui para o Ballet San Jose, na Califórnia. Minha mãe e meus irmãos se mudaram para Los Angeles, e eu fiquei extasiada em ficar perto deles. Eu dancei lá por um ano e agora estou na minha segunda temporada no Dance Theatre of Harlem.

Olhando pra trás, eu certamente me mudei muito nos últimos quatro anos, mas estou muito feliz em chamar Nova York de ‘casa’ novamente.

 

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Causando no metrô! (Foto: Reprodução / Underground NYC)

Quando foi que você decidiu se tornar profissional?

Ainda como aluna da Escola do American Ballet  eu tive várias oportunidades de participar em espetáculos do New York City Ballet em papeis infantis. Eu nunca vou esquecer dançar Polichinelle numa performance d’O Quebra Nozes e assistir das coxias os dançarinos da companhia e Maria Kowrowski como Fada Açucarada. Eu me senti tão inspirada em ver a companhia tão de perto e dividir o palco com eles que eu sabia que o ballet era o que eu queria buscar para minha vida.

Você disse que nasceu no Recife, mas se mudou para os Estados Unidos ainda muito jovem. Você acompanha o cenário de dança brasileiro?

Não tanto quanto eu gostaria! Felizmente eu tenho grandes amigos brasileiros no Dance Theatre of Harlem e é bom ouvir as histórias deles, e eles me mantêm informada do que está acontecendo com a dança no Brasil. Não existem tantas oportunidades para bailarinos e artistas no Brasil. Eu conheço muitos dançarinos brasileiros que estão agora dançando em grandes companhias  no mundo e suas histórias são muito inspiradoras.

Você pensa em se apresentar aqui?

Claro! Eu adoraria me apresentar no Brasil. É um país belíssimo e seria um sonho dançar no meu país de origem. Eu estive no Rio uma vez de férias com a família quando eu tinha 13 anos, mas seria muito bom voltar para visitar Recife, que é onde eu nasci. Além de dançar, eu adoraria ensinar e treinar meninas no Brasil.

Você dança numa companhia muito cultural e conhecida pela proximidade com a cultura negra. Qual é a importância desse tipo de companhia, como o Harlem, Ballet Black e Alvin Ailey?

A importância de companhias como a Dance Theatre of Harlem e Alvin Ailey é de abraçar a noção de diversidade e abrir mais oportunidades para bailarinos de diferentes trajetórias e contextos, particularmente afro-americanos. Essas instituições representam essa transformação do ballet e são fortes ícones na história da dança. Com o passar dos anos, muitos bailarinos quebraram barreiras e deixaram o caminho pronto para a geração seguinte. Com essas companhias, o mundo do ballet ficou mais diverso e se transformou numa reflexão mais verdadeira da nossa sociedade.

 

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Linhas! (Foto:Reprodução/ Underground NYC)

O ballet está se tornando mais inclusivo?

Absolutamente. Os bailarinos são muito diversos e diferentes, particularmente nessas companhias nos Estados Unidos. Aqui os bailarinos podem ser eles mesmos, e não se preocupam em ter que parecer um com o outro nem em se enquadrarem no esteriótipo típico de como uma bailarina deve ser. A arte ficou ainda mais bonita por causa dessa ‘leva’ de diversidade e como os bailarinos podem mostrar sua individualidade.

Existe algum papel que você gostaria de representar? Você já dançou seu repertório preferido?

Um papel que eu gostaria de dançar é Odette/Odile em O Lago dos Cisnes. Eu simplesmente amo a qualidade suave e graciosa de Odette e depois a energia forte e misteriosa exigida para Odile, o cisne negro. O Lago é uma das minhas histórias de ballet preferidas, e eu tive a oportunidade de dançar a produção de Kirk Peterson quando eu estava no Alberta Ballet. Eu também dancei Serenade, de George Balanchine, que é outro repertório preferido que eu me sinto muito honrada de ter dançado.

Quais são suas metas para o futuro?

Tenho muitas metas para o futuro e a lista está sempre expandindo e crescendo. Mas a maior delas é dançar como bailarina principal numa grande companhia de ballet nos Estados Unidos ou na Europa. Tem muitos coreógrafos contemporâneos com quem eu sonho em trabalhar e aprender. Além do ballet, eu também treino sapateado e jazz, então eu adoraria dançar na Broadway, em TV ou em filmes.

MAIS:

Além disso tudo, ela tem um eixo in-crí-vel! Olha só esse vídeo:

 

Vídeo da semana #21!

Quando a gente fala que qualquer bailarin@ de qualquer estilo pode aparecer aqui no #videodasemana é porque é verdade! Recebemos do bailarino e pole dancer Uriel Trindade uma sugestão de vídeo… dele mesmo! Adoramos, selecionamos e nos inspiramos para dar uma turbinada no post dessa semana!

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Menino dança de ponta sim! (Foto: Reprodução / Instagram)

Aproveitando a deixa, vamos falar um pouquinho de Uriel. Ele tem 25 anos, nasceu em Aracaju (SE) e é bailarino – dança de tudo, desde clássico (formado no método cubano pela Escola de Dança Juliana Stagliorio) a jazz e contemporâneo. Há três meses descobriu o pole dance, e foi por insistência da pole dancer e professora Erika Thompson que ele resolveu se jogar na modalidade e competir. Esse vídeo, aliás, é uma previazinha da coreografia que ele vai apresentar no sábado (4/6).

E como achar um homem que pratique pole dance ainda é algo meio difícil de encontrar, fizemos uma mini-entrevista com ele, que você confere abaixo:

De quem é essa coreografia? E qual é o maior desafio dela?

Essa coreografia fui eu mesmo quem fiz, com os movimentos de pole dance que aprendi com Erika (Thompson). O maior desafio são as travas (quando pernas e braços ‘trancam’ no pole, para realizar movimentos), que são corporais, articulares, e é dolorido quando a pele entra em contato com o mastro. Acho que aguentar as dores das travas é o mais difícil.

Como foi que você se interessou pelo pole dance?

Eu tenho três meses de pole dance! O que me levou a praticar foi o sonho que tenho de fazer audição para o Cirque de Soleil ou Beto Carrero, para trabalhar com o mastro chinês. Daí eu conheci Erika na Escola de Dança da Funceb, ela me perguntou se eu não teria interesse em praticar o pole dance e, quem sabe, competir. E aí eu comecei!

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Uriel também arrasa no tecido (Foto: Reprodução / Instagram)

Como bailarino você já deve ter sofrido preconceito. Existe alguma diferença no pole dance?

A relação do homem e dança é sempre ‘versus’, entendeu? Homem não dança, quem dança é mulher e quando ele dança ele é gay. Quando ele pratica pole dance o preconceito ainda é maior principalmente dentro do mundo gay, que se rotula muito. O que pratica pole dance não é visto como bailarino ou atleta, é visto como ‘viadinho’. Eu acho que o preconceito existe dentro dessas pessoas que não são preparadas ou não praticam porque têm medo de não manter essa postura mais ‘máscula’ diante da sociedade. Eu pratico pole dance por eu ser atleta e querer ser o melhor no que faço. Não me abalo com pessoas preconceituosas.

Qual é sua relação com a dança?

Eu danço desde o tempo de escola, quinta ou sexta série, sempre participei dos festivais na escola. Pratiquei ginástica, natação, fui atleta de atletismo e handebol. Com 18 anos entrei na faculdade para estudar dança e comecei dança de salão e ballet clássico, e jazz. Quando vim para Salvador eu me formei no método cubano pela Escola de Dança Juliana Stagliorio e até agora já fiz vários trabalhos como bailarino, acrobata e agora como pole dancer!

Gostamos dessa coreografia porque ela combina vários elementos do ballet clássico e do contemporâneo junto com os movimentos tradicionais do pole dance. Como Uriel é bailarino, os braços ficaram bem suaves e o trabalho de perna bem limpo. Aliás, parabéns aos envolvidos, porque a coreo tá super limpinha!

Agora, vamos ao vídeo:

Quer saber mais sobre Uriel? Ele está no Instagram (@uritrindade) e no snapchat (@urieltrindade)! Quer assistir o espetáculo? Mais informações aqui.

 

Veja nosso acervo do #videodasemana!

 

 

 

Escolha seu método!

Você decidiu dançar ou trocar seu método e não sabe por onde começar? Conversei com professoras das três maiores metodologias de ensino, Royal Academy of Dance, Vaganova e Ballet de Cuba, para explicar o que cada um tem de melhor e quais são suas principais características. Vamos lá!

Uma boa forma de se verificar o método é a partir dos arabesques. O Royal tem três, o Vaganova e o cubano, quatro. Enquanto o Royal não leva em consideração a posição do corpo em relação à frente (en ouvert ou croisé), o Vaganova e o cubano usam para identificar o passo. A terceira posição do Royal tem os dois braços colocados à frente, um levemente acima do outro, que o cubano e russo não têm.

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Quarto arabesque cubano e Vaganova, no Royal, é o primeiro arabesque croisé

O Royal publicou um vídeo com guia dos seus arabesques:

 

O duplo ronde de jambe en l’air também pode ser diferente. Enquanto no método inglês as rodinhas são feitas em sequência, antes de esticar a perna ao lado, no método cubano as duas rodinhas são feitas separadamente, porém no tempo de uma. Em vez de fazê-las seguidas, estica-se a perna ao lado rapidamente para depois recolhê-la para o novo ronde.

Vaganova (russo):

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O método Vaganova valoriza muito as extensões dos bailarinos, seja nos braços ou pernas, e também a rapidez nos giros e nos saltos. De acordo com Monise de Rosa, diretora artística da Cia de Dança Ímpeto, as bases para a dança clássica são as mesmas, porém, cada técnica tem um enfoque específico e denominações diferentes.

“O Vaganova tem um programa a ser seguido, ele não apenas dividiu o ensino em diferentes níveis, como conferiu a cada um deles um programa determinado. Esse método dá muita ênfase à busca da estabilidade como um dos elementos estruturais da dança clássica”.

Royal (inglês):

É um dos métodos mais técnicos e progressivos. Dividido em vários níveis, que vão desde a infância até o profissional, o Royal tem como base o amadurecimento do aluno ou aluna em relação à dança, e prioriza a limpeza dos movimentos diante da extensão ou número de giros. A professora Marília Nascimento, do Ballet Marília Nascimento e Mandala Cia de Dança, acredita que o Royal é o método mais lúdico e didático para crianças, em especial o novo formato do curso, remodelado há dois anos.

“Eu acho que o Royal tem capacidade de atingir diversas faixas etárias. A primeira impressão do ballet é muito bem trabalhada no Royal, especialmente nesse novo programa. São elementos diferentes como saias, fitas, chapéus, bengalas nos graus mais novos. E o tutu e danças mais variadas nos vocationals (graus mais avançados). O Royal não forma bailarinos precoces, como o russo. Este é um método mais gradual. Mas a exigência técnica é bastante apurada, sem sobrecarregar as crianças, e promove uma limpeza que é levada adiante para os graus mais avançados”, aponta.

Cubano:

Assim como o Royal, o método cubano é bastante técnico, mas não tão ‘mastigadinho’. A combinação de passos também é mais desafiadora, fugindo  um pouco do padrão seguido tanto pelo Royal quanto pelo Vaganova, e é bem dançado.  Juliana Stagliorio, fisioterapeuta e professora da Escola de Dança Juliana Stagliorio, diz que o ballet cubano é extremamente rígido, mas a matéria também é muito dançante.

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Alicia Alonso foi responsável pelo amadurecimento do ballet cubano (Foto: Reprodução)

“Se a gente for analisar técnica, a metodologia cubana é  extremamente parecida com a Vaganova. Em termos de linhas de passé, de trabalhar na meia ponta o tempo inteiro, no centro, isso tudo é parecido, e não acontece tanto no Royal. Algumas vezes isso me assusta um pouco, colocar meninos e meninas de quarto grau para fazer tantas coisas na meia ponta. Porque aqui temos aulas duas vezes por semana, e não todos os dias como nas academias profissionais. Por isso fazemos todo um trabalho com nossos alunos para prepará-los para a metodologia cubana. Mas, com esse método, o que diferencia é como a técnica é aplicada. Em termos de qualidade não há diferença, apenas em estilo. Acho o cubano mais dançado e ágil: muda a direção com muita frequência, mesmo na barra”, opina Juliana.

E aí, deu pra ajudar? Independentemente do método escolhido, o que vale mesmo é dançar com responsabilidade. Procure uma escola que tenha professores qualificados e sempre respeite os limites do seu corpo!

Anastasia Kazakova : É muita felicidade dançar no Brasil

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Anastasia Kazakova (Foto: Reprodução)

Bailarina formada pela escola Vaganova, em São Petersburgo, na Rússia, Anastasia Kazakova é uma das vinte solistas que integram a equipe de bailarinos do Ballet da Rússia, que estão fazendo uma turnê pelo Brasil desde abril. Ela, que é solista do Bolshoi, diz que é muito interessante se apresentar em várias cidades de um país grande como o Brasil, e se mostrou especialmente feliz com a resposta do o público, tão calorosa e receptiva.

Como é fazer uma turnê tão extensa como essa aqui no Brasil?

É uma turnê de ballet maravilhosa, e estamos todos muito felizes de estar aqui. Gostamos muito de passar pelas cidades maiores e mais conhecidas, como São Paulo, Rio de Janeiro, e, agora, Salvador. Mas também adoramos passar pelas cidades menores, que se mostraram tão receptivas quanto as grandes. Percebemos que o público gostou muito do espetáculo, e é muito caloroso com a gente.

O espetáculo é feito de divertimentos, ou seja, trechos que repertórios. Quais são mais fáceis de dançar? Qual ballet você gosta mais de dançar?

É mais fácil dançar esses divertimentos porque são trechos de ballets clássicos que a gente já está acostumado a dançar, como O Lago dos Cisnes, a Bela Adormecida, etc, até porque nossa formação, na Rússia, é mais tradicional e prioriza os grandes clássicos.

No segundo ato são peças mais modernas, mais contemporâneas, como Balanchine e Forsythe. São repertórios mais novos, portanto.

Não tenho como escolher um só como preferido! Adoro dançar todos eles, especialmente os clássicos.

O ballet russo tem ganhado mais espaço aqui no Brasil, seja na adoção do método em escolas ou na transmissão ao vivo das apresentações do Bolshoi em cinemas. Na sua opinião, o que diferencia o ballet russo dos demais?

Na verdade, o ballet na própria Rússia tem escolas diferentes. Eu sou formada na Vaganova, em São Petersburgo,  onde a prioridade é a extensão das pernas, dos braços e as linhas. Somos treinados para permanecermos em poses bonitas. O ballet de Moscou já prioriza pernas mais altas, muitas piruetas, explosão e agilidade. Mas mesmo dançando na Rússia a gente tem contato com bailarinos formados em Cuba, nos Estados Unidos, que vêm de técnicas diferentes, então a gente está sempre se aprimorando.

Mas, se eu tivesse que escolher uma formação, seria a Vaganova. É a melhor escola do mundo, a número 1.

Veja galeria de imagens do espetáculo! Fotos de Andrey Lapin e divulgação


O espetáculo Estrelas do Ballet Russo está em cartaz em Salvador nos dias 11 e 12 de maio, no Teatro Castro Alves. Ainda tem ingressos à venda na bilheteria e no site.

Próximas apresentações:

Aracaju:Teatro Atheneu, no dia 13 de maio (sexta-feira)

Teresina: Teatro Teresina Hall, no dia 14 de maio (sábado)

Fortaleza: Teatro Unifor, no dia 15 de maio (domingo) e Riomar, no dia 17 de maio (terça-feira)

Mais informações: http://www.balletdarussia.com/

Invasão russa em forma de workshops

Não é de agora que o ballet russo está dominando o Brasil: a gente encontra produções no cinema e vem chegando uma turnê de peso do Russian State Ballet. Mas não é só isso. Parece que a técnica russa, que parecia um pouco esquecida, voltou com tudo para os centros de ensino. Não por acaso, Boris Storojkov e Natalia Zemtchenkova, dois grandes nomes da escola Vaganova, foram convidados para ministrar um workshop em agosto na Cia de Dança Ímpeto, em São Paulo. Conversamos com a diretora artística da companhia, Monise Rosa, que explica o motivo desse evento – aberto para alunos de fora!

Natalia
Natalia foi solista no Russian Chamber Ballet e deu aulas na Cia de Dança Deborah Colker (Foto: Reprodução)

“Acredito que a troca de experiência e o contato com profissionais consagrados como Boris Storojkov e Natalia será de extrema importância para os bailarinos do Brasil! Terem esta oportunidade é  fazer com que sintam cada vez mais vontade de evoluir no ballet clássico e dentro do método russo Vaganova! Sempre terão um toque…uma boa explicação para os alunos! Pessoas como eles deveriam vir para Brasil com mais frequência! Só tem a acrescentar aos nossos alunos”, disse.

Monise explica que a Ímpeto já utilizava o método Vaganova na escola, mas, para ela, o ballet russo não é tão popular no Brasil, mesmo com os eventos recentes. Para ela, o workshop acaba sendo uma confirmação da escolha da técnica, e serve para que os alunos – e professores também, por que não? – aprendam um pouco mais sobre a história do ballet russo, tão importante para o ballet clássico.

“Aqui na Ímpeto estudamos o método russo por acreditarmos na sua evolução técnica!  Não acho que o ballet russo seja tão popular no Brasil, mas acredito que com a vinda desses profissionais estaremos contribuindo para qualificação do método por aqui e dos alunos num geral. Mas o Ballet está longe de ser uma coisa popular…Ele requer muito estudo, muita dedicação e amor à arte”!

Boris
Boris foi professor de ídolos da dança como Natalia Maharova, Ivan Vassiliev e Elisabeth Platel e em companhias como Cisne Negro e Deborh Colker (Foto: Reprodução)

A gente concorda! Se você está ou mora em São Paulo, vale a pena participar do workshop.

Quando: 3 a 6 de agosto

Onde: Cia de Dança Ímpeto (Rua Barretos, 612, Alto da Mooca – São Paulo (SP)

Telefone: (11) 2021-3487

Site: http://www.ciadedancaimpeto.com.br

Junior Oliveira: “Em 10 anos de Workdance aprendi a lidar com o outro”

Professor de ballet clássico e jazz, Junior Oliveira comanda, há dez anos, o projeto Workdance, que tem como propósito levar a dança para o interior da Bahia. Hoje, o programa já é consagrado em 14 cidades, e em sete* delas, a ação atual possui apoio financeiro da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) através do edital Setorial da Dança. Mesmo assim, Junior garante que vai continuar levando o Workdance Bahia afora mesmo com recursos próprios, como vinha fazendo antes. De novidade para 2016 temos a reedição do Workdance Competition, modalidade competitiva que estreou ano passado, e um curso de preparação para professores de dança nas cidades do interior, que ainda vai começar.

De onde veio o ‘estalo’ para você criar um projeto de dança pelo interior da Bahia?

Junior: Partiu da necessidade da inclusão da dança no interior da Bahia, e da necessidade de me formar melhor como professor. Um bom bailarino pode não ser um bom professor, ou coreógrafo, e vice-versa. Eu acho que o estudo e a pedagogia fazem a diferença, e percebi mais ainda quando entrei na Faculdade de Dança da Universidade Federal da Bahia. Eu quis explorar mais esse lado teórico, mesmo já dando aulas em escolas de ballet há muitos anos. Daí, em 2006, eu resolvi colocar a teoria em prática nas cidades do interior do estado, começando por Senhor do Bonfim, porque lá a arte chega com alguma dificuldade.

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Aula de ballet clássico (Foto: Workdance / Divulgação)

O que aconteceu nesses 10 anos?

Junior: Nesses 10 anos de projeto aprendi a lidar com outro, com a leitura que o outro tem do projeto e da sua imagem. Por causa disso eu inclusive mudei minha forma de me vestir, de me apresentar aos pais no final do projeto, sabia? Algumas pessoas ainda vêem uma forma mais informal de vestimenta com desleixo, especialmente no interior. Então me adaptei a essa realidade. O projeto é voltado para o interior do estado, com a cultura e arte. atendemos a 14 cidades e nesse ano vamos atender a mais duas capitais. Hoje já temos até outros projetos nas cidades que não apenas culturas. Em algumas cidades ficamos uma semana, em outras ficamos 12 dias… Depende da disponibilidade.

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O professor Junior Oliveira (Foto: Acervo pessoal)

E como é a apresentação aos pais?

Junior: Nos finais das oficinas sempre realizamos uma mostra, uma apresentação de dança aos pais. Às vezes até os prefeitos das cidades comparecem. Tem algo curioso: os professores premiam os alunos que mais se destacam na oficina. Mas essa premiação não tem caráter competitivo, é apenas para fazer com que os alunos se superem e busquem aprimorar o desempenho. Normalmente esse prêmio é um artigo de dança, como sapatilhas. Mas mesmo sendo algo pequeno, os alunos ficam enlouquecidos!

 

Qual é a sua proposta com o Workdance?

Junior: Eu venho do ballet clássico, e uma das coisas que proponho é a gente ver até onde podemos chegar na dança com os nossos corpos. Além disso, gosto de discutir e desconstruir o papel do gênero no ballet. E até mesmo os contos de fadas, né, que é tudo mentira. Não é só o homem que precisa ser a força na dança, por exemplo. E não é só a mulher que pode ser delicada.

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Apresentação pós-oficina (Foto: Workdance / Divulgação)

Você já percebeu algum aluno ou aluna que poderia ter futuro na dança?

Junior: Sim, e estamos com projetos para lançar esses alunos e alunas. Em 2015 tivemos a primeira edição do Workdance Competition, esse sim um projeto de competição. Nele, contemplamos quatro bailarinos do interior para ficarem aqui em Salvador com tudo pago no mês de janeiro. Eles fizeram cursos, foram a apresentações… Fizeram teste para a escola de Dança da Funceb, também. Os cinco alunos que fizeram – um outro menino veio só para fazer o teste – passaram, mas hoje só dois estão cursando. As meninas voltaram para o interior porque passaram no vestibular. São coisas da vida que acontecem, as pessoas mudam de ideia, percebem que dançar não é bem o que elas querem… Enfim. Meu papel é levar a dança para quem não conhecia, e abrir portas para as pessoas.

 

Veja mais fotos:

*As cidades que contam com o aporte financeiro do Governo do Estado da Bahia no edital de 2014 são Senhor do Bonfim, Santo Amaro, Itabuna, Valença, Jacobina, Miguel Calmon e Alagoinhas.