Lysion Vieira: “Foi um desespero fazer tantos movimentos novos”

Dono de uma risada contagiante, uma disciplina militar e de um eixo de dar inveja, Lysion Vieira é um dos bailarinos brasileiros que precisaram ir para fora do Brasil para realizar o sonho de dançar profissionalmente. Nascido em Porto Alegre e radicado na Bahia, onde se formou em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lysion dança desde 2013 na Ad Deum Dance Company, em Houston, no Texas, Estados Unidos.

De formação majoritariamente clássica, ele conta um pouquinho do desafio que foi aprender e se acostumar com passos e estruturas tão diferentes – além das diferenças culturais, claro.

E a dança não foi tudo que ele conquistou! Foi na companhia que ele conheceu a namorada, a americana Emily Runyeon – que até já veio conhecer o Brasil.

Lysion dançando pela Ad Deum (Foto: Sotter Fotografia)
Lysion e Emily dançando pela Ad Deum (Foto: Sotter Fotografia)

Como foi sua chegada na dança profissional depois de se formar?

Foi bem tenso, fiquei na verdade o ano de 2013 apenas dando aulas, e no final deste mesmo ano descobri que o que eu queria mesmo era dançar. As companhias de dança que me interessavam aqui no Brasil pelo perfil de trabalho nunca me aceitavam em audições, então decidi me desafiar a algo no exterior. E fui aceito. Fiz inicialmente a audição por vídeo e currículo. E depois passei por três meses de avaliações já dentro da companhia. Quando finalizaram os três meses, fui chamado para fazer parte da companhia principal.

 

Apresentação ao ar livre da Ad Deum (Foto: Arquivo Pessoal)
Apresentação ao ar livre (Foto: Arquivo pessoal)

Como foi sua adaptação nos Estados Unidos?

A adaptação foi algo bem desafiador, culturas bem diferentes, mas estava bem aberto ao novo, fui para lá sem muitos muros. A saudade da família e a adaptação com a língua foram um dos maiores desafios no começo. Nas temporadas que participei, havia apenas eu, brasileiro, e uma japonesa de estrangeiros.

Como é a dinâmica de aula numa companhia profissional?

É uma exigência completamente diferente. Muito mais desafiador, porém muito inspirador estar com pessoas que têm diferentes envolvimentos com a dança no nível profissional em uma sala. Você se vê desafiado a melhorar dia após dia, e muitas vezes fazer um “reforço individual” fora da sala de aula para atender melhor essas demandas. Mas é muito gratificante poder ver o crescimento gerado através deste desafio diário.

Sua base é essencialmente clássica. Foi difícil se adaptar a outros estilos?

Mesmo a companhia tendo linhas contemporâneas e modernas, a base  permanece clássica. Mas foi um desespero, honestamente falando, receber aquela carga de qualidade de movimento completamente diferente da que eu estava acostumado. Hoje percebo que acrescentou muito mais na minha linguagem corporal, e comecei a curtir e amar mais as contrações, espirais e “high releases” de Martha Graham Technique, as liberações de Limón, os trabalhos de força exigidos  da linha de Horton. A respeito do ballet, de dançar, bate aquela saudade dos pas de deux de repertório, mas ele ainda está muito presente no meu dia a dia. Foi e é uma base fundamental para o que executo hoje!

E seu namoro com Emily? Namorar uma bailarina e partner é mais fácil ou mais complicado?

Na verdade o nosso namoro começou dois dias antes de eu retornar para o Brasil – minha volta foi por motivos familiares  – e foi exatamente a última temporada que ela estava participando. Tivemos a experiência de sermos partners, mas também construímos um relacionamento de amizade muito lindo antes do coração começar a bater mais forte e as “borboletas começarem a dançar na barriga”. Dançar com ela depois de estarmos namorando mudou completamente a atmosfera de dançar junto. Esse algo especial valorizou ainda mais os momentos em cena, e acredito que o relacionamento atingiu um outro nível de maturidade. E a dança super ajuda no relacionamento! Não apenas como bailarina e profissional, mas também pela pessoa maravilhosa que ela é de dentro para fora, que me faz desejar ainda mais estar ao lado dela a minha vida toda.

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Lysion e Emily ❤
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O Quebra Nozes do Bolshoi

Como a gente já gosta de uma resenha e não é todo dia que dá para assistir uma produção do Bolshoi ao vivo – ainda que via transmissão no cinema (amamos a tecnologia!!!!) – achamos que valia a pena mostrar nossas impressões da montagem d’O Quebra Nozes.

A produção assistida foi do dia 27 de dezembro, com Anna Nikulina como Marie, Denis Rodkin como príncipe Quebra Nozes e Andrei Merkuriev como Drosselmeier. A assinatura da montagem e da coreografia é de Yuri Grigorovitch.

Como em outras produções que assisti do Bolshoi, o diferencial da companhia é o corpo de baile. Flocos de Neves e a Valsa das Flores (ou equivalente, pois a versão do Bolshoi é diferente da tradicional e de Balanchine) estavam impecavelmente ensaiadas, tanto as bailarinas como os bailarinos. Palmas, também, para a transmissão da Pathé, que nos presenteou com imagens do topo do palco e de ângulos que normalmente não temos acesso quando estamos no teatro.

No geral, também gostei muito da escolha dos principais: ambos muito limpos e entrosados. Anna começou o repertório um pouco ‘travada’, ousando pouco nas extensões (ela tem braços e pernas super longilíneos!) e com uma expressão meio assustada. Foi bonito ver que, assim como a personagem, Marie, ela foi se soltando mais durante a apresentação, e simplesmente arrasou no solo da protagonista, que tem uma coreografia tecnicamente muito mais difícil do que as tradicionais. Também gostei do Drosselmeier acompanhando e conduzindo o sonho de Marie.

Denis também cresceu durante o espetáculo, mostrou muita qualidade e suavidade nos movimentos, mas não me cativou tanto. Achei a produção dele exagerada – muito laquê no cabelo, que chegava a brilhar com a luz do palco – e maquiagem desnecessariamente forte.

No mais, achei que a montagem deixou a desejar no cenário e, especialmente, no primeiro ato. Não gosto de ver bailarinos crescidos interpretando crianças, especialmente meninas vestidas de menino. Achei uma bola fora, até porque o Bolshoi é uma escola super tradicional e não teria dificuldade em ensaiar crianças para o primeiro ato.

Anna e Denis no pas de deux de Marie e o príncipe Quebra Nozes (Foto: Reprodução / Pathé Live)
Anna e Denis no pas de deux de Marie e o príncipe Quebra Nozes (Foto: Reprodução / Pathé Live)

O Quebra-Nozes, que foi presenteado a Marie, era uma criança, e não um brinquedo. Achei estranha essa escolha, e até demorei a entender – muito por conta da fantasia, também – que se tratava do Quebra Nozes e não de mais um boneco-vivo do padrinho da menina, Drosselmeier. Além disso, confesso que senti falta da Fada Açucarada também, ainda que num papel mais de mis-en-scène.

No mais, fiquei satisfeita com a experiência e já estou ansiosa pelas próximas produções do Bolshoi na temporada 2016. Mas não escondo que esperava mais da companhia – e ainda espero! – porque sei que o Bolshoi é capaz de montar espetáculos ainda mais envolventes.

Para ver as próximas transmissões dos espetáculos do Bolshoi clique aqui!

Já falamos sobre o Bolshoi antes, no World Ballet Day! Quer lembrar? Clique aqui 🙂

Então é Nat… Quebra Nozes!

Pra qualquer bailarino ou amante da dança, Natal e fim de ano são sinônimos de “O Quebra-Nozes”. É o único repertório que podemos ter certeza que vai constar no calendário de todas as companhias clássicas do mundo. E – o mais legal! – todas as versões têm diferenças e sutilezas, o que faz com que nosso clássico natalino nunca perca o frescor.

“O Quebra-Nozes”é, muitas vezes, responsável por transformar crianças em bailarinos. A música de Tchaikovsky, a magia dos personagens, o corpo de baile que se apresenta em diversas danças – seja como flores ou flocos de neves – e o ambiente de sonho faz com que a atmosfera do repertório traduza, para muitos, o significado da própria dança.

E a gente, claro, não sairia imune a esse encantamento. Felipe conta que a versão que mais lhe marcou foi a do Royal Ballet, em 2009 – de fato, uma das mais populares da companhia.

“Essa foi a primeira vez que assisti o repertório completo, e a versão da companhia é altamente atrativa e lúdica. A parte que mais gosto, com certeza, é o pas de deux da Fada Açucarada com o príncipe, com a Miyako Yoshida e o atual queridinho do Royal, Steven McRae. Dancei esse repertório apenas uma vez, no qual fiz o personagem Fritz (irmão da protagonista, Clara) e um pas de trois dos Mirlitons, já no segundo ato, no Reino dos Doces. Esse, para mim, ficou muito marcado, e ainda espero dançar novamente!”

Steven McRae e Miyako Yoshida como príncipe e Fada Açucarada do Royal Ballet, em 2009 (Foto: Royal Ballet)
Steven McRae e Miyako Yoshida (Foto: Royal Ballet)

Já eu me rendi aos encantos d’O Quebra Nozes bem antes. A versão que mais me marcou foi do New York City Ballet, de 1993, que tinha Macaulay Culkin como o Príncipe Quebra-Nozes e narração de Kevin Kline. Foi uma versão muito teatral e extremamente bem-produzida, e lembro que, mesmo pequenininha, me encantei com a Dança Cigana e, com os flocos de neve e, claro, com o pas de deux da Fada Açucarada e seu Cavaleiro, protagonizado por Darci Kistler Damian Woetzel.  Minha experiência com os palcos também é pequena: dancei uma vez, quando tinha sete aninhos, e participei da Dança Chinesa.

 

Marie/Clara e o príncipe (Macaulay Culkin) se despedem do Reino dos Sonhos (Foto: Reprodução)
Marie/Clara e o príncipe (Macaulay Culkin) se despedem do Reino dos Doces (Foto: Reprodução)

Uma outra coisa que amamos fazer é assistir ensaios, para entender como é que a mágica acontece. Nesse sentido temos muito a agradecer ao Royal Ballet, que volta e meia disponibiliza ensaios dos bailarinos principais conduzidos por mestres e répétiteurs (remontadores) da companhia. Nesse abaixo temos a Lauren Cuthbertson e Matthew Golding sendo dirigidos pelo diretor Kevin O’Hare. Vejam a atenção que ele tem com a musicalidade, delicadeza e o olhar dos dançarinos! Dicas impagáveis 🙂

Para quem quiser assistir à versão do New York City de 1993, tem o link para o ballet completo aqui!

E você? Qual é seu “O Quebra Nozes” preferido?

Vídeo da semana #05!

Olá leitores, tudo bem? Hoje é sexta-feira! Muitos nesse momento devem estar de férias da faculdade, colégio, entrando em recesso no trabalho e já terminado os festivais de fim de ano… E agora trazemos mais um #videodasemana para descontrair!!!

O vídeo de hoje fez o maior sucesso nas redes sociais e foi indicado pelas leitoras Mariana Zollinger e Carolina Paula – nosso muito obrigado pela dica 😉

O vídeo mostra uma simpática senhora, que aparentemente está num hospital. Deixando seu andador de lado, ela se apoia em um corrimão do corredor e começa a fazer uma sequência de barra com pliés e tendus. Não há como não achar super fofo o que ela está fazendo, rememorando alguma aula que devia ter feito antes.

É comovente perceber como a dança na nossa vida não passa: deixa sua marca e pode ser atemporal. Mesmo em um hospital, provavelmente internada, essa senhora faz sua barra para si mesma, e nós que a observamos podemos refletir o quanto nossos problemas parecem pequenos perto de um momento como esse. Vamos ao vídeo então, né?

 

Continuem sugerindo vídeos! São sempre bem-vindos 🙂

Veja aqui nossas outras edições!

Vídeo da semana #04

Vídeo da semana #03

Vídeo da semana #02

Vídeo da semana #01

Natal sem culpa!

Felicidade em O Quebra Nozes do Royal Ballet, 2009. Foto: ROH, Johan Persson
Felicidade da Elizabeth Harrod em O Quebra Nozes do Royal Ballet, em 2009. Foto: ROH, Johan Persson

Fim de ano é aquela coisa: confraternizações, reuniões de família, amigos-secretos, Natal… Em comum, uma coisa: comida! Alimentos muitas vezes gordurosos e que evitamos a todo custo durante o ano.

Mas será que todos esses alimentos são ruins, mesmo? Tem como fazer uma ceia de Natal saudável, sem precisar ficar só nas frutas? Conversamos com a nutricionista Maria Melo, que tranquilizou a gente! Maria está se especializando em nutrição para pessoas com restrições alimentares, e está lançando a própria linha de produtos vegetarianos, sem glúten e sem lactose, o Pratododia.

Mas voltemos ao ‘problema’: Ela explicou que quem dança com regularidade normalmente tem o metabolismo mais acelerado e, que, mesmo de “férias”, o corpo queima calorias com rapidez. Mas isso não dá carta branca para ‘enfiar o pé na jaca’:

“Deve haver atenção principalmente na ingestão dos carboidratos, priorizando os complexos e de baixo índice glicêmico, encontrados nos alimentos integrais, nas raízes e tubérculos (como batata doce, arroz integral e aipim/mandioca), que são de digestão lenta e assim mantém o metabolismo acelerado”, diz Maria.

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Nozes, castanhas e amendoins são excelentes fontes de gordura boa! Foto: Reprodução

Uma boa notícia: gorduras (boas!) estão liberadas em moderação. Segundo a nutricionista, não devemos ultrapassar de 15 a 20% da ingestão diária, e devemos preferir as oleaginosas: castanhas, amêndoas, sementes e abacate, que são importantes para o desempenho nas atividades físicas.

Mas e na ceia de Natal? Segundo Maria, o peru assado está liberado, especialmente se for sem pele. Se você puder apitar na forma de cozimento, prefira marinar a ave no chá de ervas, vinhos ou sucos (os de maracujá e laranja são excelentes!) a refrigerantes e molhos prontos, como shoyu ou inglês. No prato podem constar frutas secas como a uva-passa – é uma excelente fonte de energia com baixa caloria! -, e as crucíferas, como a couve e o brócolis.

E gordice, pode? Pode, mas com algumas mudanças. “As rabanadas, por exemplo, podem ser feitas no forno ao invés de fritas, assadas e regadas com leite e canela. A canela é um alimento termogênico que acelera o metabolismo”, explica. “Já para a sobremesa, optar por preparações com frutas naturais, como um mousse de frutas, como damasco, manga, banana com cacau em pó ou chocolate amargo. E quanto ao panetone, se for possível, de farinha sem glúten ou farinha integral e de frutas”, completa.

Maria também deixou aqui uma lista de substituições para fazer na ceia. E, claro, que você pode levar para a vida! 🙂

Salpicão: trocar o creme de leite ou maionese pela biomassa de banana verde, que representa um alimento funcional de baixo índice glicêmico e importante fonte de carboidrato, vitaminas e minerais.

Risoto: substituir o arroz arbóreo convencional pelo arroz integral com lentilha e oleaginosas, como castanha do Pará ou castanha de caju, nozes e amêndoas.

Farofa: usar a farinha de mandioca, que tem o índice glicêmico menor que a farinha de milho. Mas o ideal, mesmo, é usar sementes de linhaça, abóbora e chia, que são ótimas fontes de lipídios.

Lentilha: usar no lugar do feijão – e não apenas nas festas! É uma proteína vegetal de ótimo valor nutricional, rica em vitaminas A, C e do complexo B, potássio e ácido fólico, de baixa caloria e de fácil cocção e absorção do sabor dos outros alimentos, podendo ser usada em saladas, sopas, risotos.  Maria salienta que a combinação com o arroz é muito importante para a complementação dos aminoácidos essências.

 

Vídeo da semana #04!

Nureyev e Karen Kain em produção d'A Bela Adormecida em 1974 (Foto: Reprodução)
Nureyev e Karen Kain em produção d’A Bela Adormecida em 1974 (Foto: Reprodução / National Ballet of Canada)

E eis que temos mais um #videodasemana para carimbar a sexta-feira! Dessa vez, a sugestão foi quase uma exigência: Felipe, que vai dançar a Bela Adormecida nesse fim de semana, quis uma auto-homenagem e pediu que o vídeo fosse desse repertório.

Então tá, né? A gente quase não gosta da Bela, mesmo… 😉 Selecionei a variação masculina do 3º ato, o casamento, dançada por ninguém menos que Rudolf Nureyev (a gente já falou dele aqui, mas não custa lembrar!), em 1977, no National Ballet of Canada (também fizemos uma análise dessa companhia no World Ballet Day!).

O que eu acho que vale destacar nesse vídeo é a precisão dele nos movimentos. Nureyev também sabia equilibrar força com delicadeza como ninguém – repare que ele sempre aterrissa dos pulos sem aquele “tombo” que muitos bailarinos fazem. Os braços e as mãos estão sempre leves, como se estivessem desconectados do resto do corpo.

Essa é uma variação extremamente difícil, com muitos giros e saltos complexos. E, mesmo assim, ele não quica nem uma vez! Limpeza e técnica, a gente vê por aqui… Além disso, vale ressaltar o ar de nobreza que ele empregou para caracterizar o príncipe Florimund/Désiré.

Sem mais delongas, eis o vídeo! E queremos ver você fazendo igual, viu, Felipe?  😛

 

 

Não viu os outros? Nosso arquivo tá aí:

Vídeo da semana #03

Vídeo da semana #02

Vídeo da semana #01

Filipe Monteverde: “Eu sempre tive esse lado dramático em mim”

Foto: Júlia Lima

Logo que chego, já vejo a movimentação expressiva, forte e marcada característica da companhia. O ensaio já acontece a todo vapor e bailarinos em vigor dão tudo de si na carga emocional e feroz que “Instinto” demanda. Eu, que fui integrante da companhia por cinco anos, toda vez que assisto sinto uma vontade avassaladora de estar junto e dançando, partilhando desse momento tão gostoso. Por hora fico apenas como espectador observando. Por enquanto… (risos)

Lipe, como sempre, muito focado na correção de intenção de movimento que os bailarinos devem passar para o público, isso para ele é essencial. Quase que uma marca registrada. Corre tudo muito bem durante os ensaios e o elenco vai refinando cada vez mais os movimentos, para que tudo esteja perfeito para a estreia, dia 15 de dezembro (aliás, estarei lá assistindo rs).

Graduado em Dança pela Universidade Federal da Bahia, Filipe Monteverde também é bailarino, professor, coreógrafo e diretor da Kátharsis companhia de Dança, já ganhou por três vezes o primeiro lugar no concurso Ballace, na categoria Livre Avançado. Agora, ele conta para OITO TEMPOS sobre esse momento especial para ele e seu elenco, e o que esperar do futuro da cia.

Foto: Divulgação
Kátharsis em movimento

Como surgiu a Kátharsis?

Surgiu a partir de um laboratório de corpo e criação, durante o curso de dança da UFBA. Em um trabalho de pesquisa de movimento, surgiu meu primeiro trabalho chamado “Musevi” (judeu em turco), no qual eu trouxe essa relação dos judeus dentro do campo de concentração, desde a câmara de gás, os corpos nas valas e etc. A partir daí o trabalho tomou força e eu tive a ideia de criar um grupo para levar para concurso, mostras de dança, e a companhia surge a partir disso. O nome Kátharsis foi dado por um amigo. Pedi para ele relacionar uma foto minha desse trabalho junto a minha movimentação, o que ele via naquilo. O nome combinou perfeitamente com minha proposta dentro do Contemporany Jazz, a questão do sentimento, que não deixa de ser jazz, mas possui essa carga emocional, visceral, o que vem de dentro para fora, totalmente explícita nas coisas que eu faço.

De onde vem a inspiração para essas coreografias tão fortes que você cria, que causa impacto e reações variadas em quem assiste?

Minha inspiração parte de sensações, tudo o que a gente vê, o que a gente passa, vivências pessoais, com amigos. Eu sempre tive esse lado dramático em mim e eu relaciono muito minhas criações a linguagem cinematográfica. Acredito que o cinema tem um poder muito grande de sensações que provoca no espectador. A dança, claro, tem sensações, mas ela pode ser aprofundada. Quando penso em dança, vem primeiramente esse sentimento que você quer imprimir de verdade na pessoa, em como meu trabalho passa de verdade para quem está assistindo. Acho isso muito forte quando nos propomos a fazer algo: acreditar no que você faz e assim passar para a plateia, e eu não tenho medo disso. Sempre arrisco o que eu quero, penso em temas polêmicos, dramáticos, porque eu tenho isso na veia. Justamente por serem temas extremamente fortes, eu preciso experimentar, passar isso para que os bailarinos reproduzam para quem assiste.

Você sente algum preconceito/resistência das pessoas que vem seu trabalho por ser um estilo diferente do que se está acostumado no nosso cenário de dança?

O que me proponho a fazer juntamente com a companhia foi super positivo no retorno, justamente por haver uma verdade muito grande no que faço. Mesmo não agradando a todos, há uma verdade impressa para quem vê e isso volta de uma forma positiva. Acredito que tem sim um preconceito contra o jazz, por ser visto a partir de outras linguagens, associado a algo cafona, antiprofissional, o que não é verdade. O jazz tem uma carga muito forte, seu valor, sua história desde o surgimento com os negros norte americanos até hoje, na polissemia de movimento. Ele agrega e contribui muito. Acho que se ele não existisse, haveria um grande problema no universo da dança.

Durante cinco anos fui integrante da companhia e sempre acompanhei essa rotatividade do elenco ao longo dos anos. Como você encara essas mudanças?

Por ser um grupo muito grande tem essa rotatividade mesmo. Eu, por não fazer audições, sempre convido os bailarinos, tem sempre essa troca. Trabalhar com elenco grande, para mim, é sempre muito bom. Mesmo saindo um, o carinho sempre está por aqui, junto, acolhedor, sempre temos essa troca. Gosto muito de estar recebendo quem sai e volta. A Kátharsis é isso, claro que sempre de uma forma boa. Todos os que passam por aqui são muito queridos!

Primeiro espetáculo como companhia independente. Como está sendo essa preparação?

Tá uma maluquice né (risos), mas tá rolando. Os bailarinos ajudam muito, a equipe externa é muito boa, desde a cenografia até o figurino são pessoas que estão ajudando muito. Temos todo esse apoio de parcerias, escolas amigas que forneceram desde o linóleo até o espaço para ensaiarmos. É uma sensação muito boa pois sempre fiz trabalhos pequenos e tá sendo uma maravilha fazer um longa, uma sensação incrível. Esse ano conseguimos fazer isso, eu tô muito feliz e espero que o resultado seja maravilhoso, para os bailarinos e para quem assiste.

Seu espetáculo “Instinto” estreia dia 15 de dezembro no teatro ISBA. Conta pra gente a concepção dele e o que o público deve esperar no dia.

É uma mistura de sentimentos, relacionado a filmes e outras coisas. Me inspirei livremente na trilogia “Planeta dos Macacos”, o último filme justamente fala dessa questão humano/animal. Também porque meu gato morreu e resolvi homenageá-lo colocando como um dos personagens. É um espetáculo que envolve desde o início ao final o espectador, por muitas coisas. Ele não é linear, trabalha muito as sensações, tem nuances, fortes, leves, volta para o forte. Ele frisa a questão de o instinto não ser somente selvagem, como as pessoas pensam. Ele tem uma carga suave, maternal muito grande dentro dele, brinca com as nuances da palavra em si. Por tratar de uma narrativa deixa mais forte a ligação ao tema. Acredito que vai emocionar muito e espero que todos gostem. Convido todos a assistirem dia 15! Vão se arrepender se vocês não forem!

Foto: Júlia Lima
Ensaio de Instinto. Foto: Júlia Lima

O que podemos esperar da Kátharsis após esse momento pós-Instinto?

Espero uma grande turnê, que possamos viajar e propagar essa ideia para muita gente, não só aqui mas no Brasil, no mundo. Tenho essa vontade muito grande de vivenciar editais, viajar com os bailarinos e proporcionar um nível mais elevado tanto para Salvador no cenário da dança quanto para a companhia.

Algum último recado para os leitores do OITO TEMPOS?

Espero que a partir dessa matéria, que eles acompanhem muito mais o blog, que possam compartilhar o que acontece porque… é cultura! É uma forma maior e melhor de informação. Acho muito bom vocês terem tido essa iniciativa para ampliar mais esse horizonte e as pessoas acompanharem o que acontece sobre dança na cidade. Agradeço de poder ter esse momento, mostrando meu espetáculo e a companhia dentro do espaço do blog. E que a partir disso, as pessoas acompanhem o blog, que com certeza tem um bom gosto maravilhoso! ❤

 

OBS: A foto de abertura também é da Júlia Lima!

Penchée (mais!) turbinado

Bailarinas durante aula em Lausanne, na Suíça (Foto: Reprodução)

A gente já deu dicas de como fazer um penchée mais controlado (não viu ainda? Clique aqui!), mas agora vem a cereja do bolo: como deixar a perna atrás mais alta e sustentada?

Antes de qualquer coisa: muita calma nessa hora! Não vá achando que o exercício que você fez ontem vai surtir efeito no penchée de amanhã. Tem que ter paciência e disciplina, sobretudo para não se machucar.

Como falamos antes, a ideia do penchée é a manutenção da linha do arabesque. Se você consegue fazer um arabesque a 90º com as costas retinhas, já tem meio caminho andado – sua sustentação de costas é boa, e provavelmente com alongamento você consegue subir mais a perna atrás.

Ashley Hod, doNew York City Ballet, com seu penchée invejável. Foto: Jayme Thornton
Ashley Hod, doNew York City Ballet, com seu penchée invejável. Foto: Jayme Thornton

Se não for o seu caso, não tem problema! Você pode melhorar com alguns exercícios de fortalecimento. Um deles é a “esfinge”: deite de bruços, dobre os braços na altura do peito e estique as pernas. As palmas devem estar voltadas para o chão, embaixo do tronco. Faça uma flexão devagar, e quando estiver com o corpo levantado, abaixe o quadril enquanto olha para cima. Faça esse movimento oito vezes e depois vá aumentando gradativamente.

“Natação”: deite de bruços e cruze as mãos atrás da cabeça. Levante o tronco e as pernas ao mesmo tempo, conte até três bem devagar e desça. Repita dez vezes e aumente gradativamente. Esse exercício vai te ajudar a ter mais força nas costas e na parte interna da coxa.

Arabesque – penchée – arabesque: faça um penchée controlado com as duas mãos na barra. Quando chegar ao seu limite, levante o tronco SEM abaixar a perna. Grande parte da força nas costas é na volta – e não na ida! – para o arabesque. Atenção: esse exercício é difícil e demanda MUITA energia!

Parede amiga: faça um penchée contra uma parede com as duas mãos no chão e o pé de base um pouquinho à frente da parede. Depois de achar um ponto confortável, coloque o peso do corpo nas mãos e tire o pé da parede. Tente manter a perna o mais alto possível durante três segundos e volte para o apoio. Faça isso cinco vezes e vá aumentando gradativamente.

Mais uma coisa importante: se der uma dor “estranha” ou qualquer fisgada, para imediatamente! Respeite os limites do seu corpo, porque mais vale um penchée levemente acima de 90º do que uma bailarina ou bailarino machucada/o!

Gostou das dicas? Deu resultado? Conta pra gente 🙂

Fonte: Dance Spirit

Vídeo da semana #03

Charleston, a dança que caracterizou os anos 1920!

A gente já tinha dito por aqui que adoraria receber sugestões de vídeo que fugissem um pouquinho do clássico, né (amamos, porém, por que não variar)?

Pois quem nos enviou esse vídeo super divertido e dinâmico foi o leitor Vinícius Lima, que, como a gente, se encantou com a flexibilidade, agilidade (e habilidade!) dos dançarinos. A filmagem não é profissional e a dança é zero pretensiosa, o que, na minha opinião, confere um ar ainda mais informal à apresentação. Ainda assim, a graciosidade dos quatro dançarinos chama muito a atenção, e que presença de palco (é palco mesmo?) deles!

Esse estilo de dança é chamado Charleston, e sintetiza muito bem o espírito dos anos 1920. Em casas de jazz, sobretudo em Nova Orleans, nos Estados Unidos, é possível encontrar apresentações desse estilo ou pessoas que vão lá e dançam de improvisação. Pena que não conseguimos descobrir onde esse vídeo foi feito e quais são os nomes dos bailarinos!

Segue o link!