Raven Girl, um conto de fadas para adultos

Audrey Niffenegger e Wayne McGregor durante a montagem de Raven Girl
Audrey Niffenegger e Wayne McGregor durante a montagem de Raven Girl

Mais de três anos se passaram desde que a escritora americana Audrey Niffenegger (A Mulher do Viajante do Tempo) e Wayne McGregor, coreógrafo do Royal Ballet de Londres, se reuniram para criar um projeto ambicioso: um conto de fadas inédito apresentado em três linguagens diferentes e complementares; palavras, dança e imagem.

Não se tratava, portanto, de uma adaptação do livro para dança, da dança para o filme ou vice-versa. Cada parte do “projeto” teria como propósito contar sua versão da história, criada em conjunto pelos artistas. Audrey inventou a história, McGregor inventou os passos, Gabriel Yared inventou a música e o filme ainda está em fase de criação.

Apesar de não ter criado a história preocupada com a parte dançada do projeto, a escritora acompanhou a coreografia montada por McGregor desde o início. “Foi animador porque (a dança) é uma linguagem que eu não falo. É como outra língua, você não entende nada, mas pensa ‘olha, é minha história em outra língua’ e acha lindo ”, disse Audrey em entrevista coletiva promovida pelo Royal Ballet.

Capa do livro Raven Girl
Capa do livro Raven Girl

Raven Girl (A menina corvo, em tradução livre), conta a história de uma menina com alma de pássaro, fruto do amor entre um carteiro e uma corvo. Desde pequena ela se sente aprisionada pelo próprio corpo e tudo que ela mais quer é conseguir voar. Ninguém a compreende; apesar da aparência humana, ela fala a língua dos pássaros e não consegue se comunicar com pessoas. Por outro lado, os corvos não a enxergam como uma deles e, por isso, a menina se sente muito sozinha.

O livro, lançado em fevereiro de 2013, tem uma linguagem simples e direta, e carrega o humor fino e levemente sombrio característico da autora. Os personagens não têm nomes, são “o carteiro”, “o menino”, “o gato”, “o médico”. A narrativa, no entanto, é clássica no quesito conto de fadas, começando com “Once there was a postman who fell in love with a raven” (“Era uma vez um carteiro que se apaixonou por uma corvo”, em tradução livre) e terminando com o esperado final feliz, que remete ao início do livro. Audrey disse que procurou colocar em seu livro todas as características principais de um conto de fadas, mas quis que os personagens fossem psicologicamente mais complexos. “Não é algo que você vai encontrar em uma história dos irmãos Grimm”, explicou.

As ilustrações, que dominam boa parte da obra, também são de autoria da escritora. McGregor credita às imagens boa parte da coreografia, porque, segundo ele, elas possuem “uma gramática física implícita”. Segundo Audrey, a escolha da aquatinta (técnica que consiste em sobrepor uma imagem em outra) reflete o estado de espírito da personagem principal, sentindo-se duas coisas ao mesmo tempo – e, talvez por isso, não se identificando plenamente com nenhuma delas.

O ballet, cuja temporada de estreia no Covent Garden foi de maio a junho do mesmo ano, carregou muito da narrativa do livro, se tornando até didático em algumas partes. O decorrer do repertório deu a entender que McGregor ficou mais preocupado em explorar o enredo até a metade da história, enxugando o final. A apresentação contou com muitos efeitos visuais, fazendo alusão às litografias de Audrey. A ideia teria sido excelente se não tivesse ofuscado o ballet, que acabou contando mais com mis-en-scénes e efeitos do que com dança, propriamente.

Melissa Hamilton como Raven Girl
Melissa Hamilton como Raven Girl

No entanto, a música e as coreografias do solo da Raven Girl e do pas de deux dela com o príncipe corvo (claro que tinha um príncipe, afinal, é um conto de fadas!) fizeram o ballet valer a pena. McGregor conseguiu traduzir em movimento o que Audrey descreveu em palavras, e a música de Yared fez com que a gente quase pudesse escutar o pensamento e a angústia da personagem.

McGregor disse que não se sentiu obrigado a dar ao ballet o mesmo rumo do livro e defendeu que a dança tem seu próprio ritmo. “Nós sempre soubemos, desde o início do projeto, que ele seria feito em três fases: o livro, que teria sua vida própria, o palco, que traria outra versão da história e desviaria do livro em alguns momentos, e o filme, que combinaria todos os elementos anteriores com animação e voz”.

Estou ansiosa para a terceira parte do projeto e espero, sinceramente, que mais parcerias como essa possam enriquecer o mundo da arte – McGregor e Audrey deram a entender que esta foi o primeiro de vários projetos conjuntos. Mesmo se não forem perfeitas e aclamadas pelo público – o ballet recebeu algumas críticas negativas – pelo menos vai servir como uma reciclagem no mundo da arte. Ao integrar em uma mesma produção letras, movimento e música, Raven Girl é um convite para que mais artistas a saiam do óbvio de vez em quando.

 Veja aqui o vídeo em que Audrey e McGregor falam do conceito do projeto.

 

*Post originalmente publicado no blog Revista Pulso em 14/06/2013. Para ver, clique aqui.

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