La Bayadère, do Royal Ballet

Foto: Royal Opera House
Roberta Marquez como Nikiya

Assistir uma produção do Royal Opera House é, em si, uma experiência para se lembrar – independente do que você escolheu ver. Só de passar pelos portões do teatro, pelos salões em que figurinos de bailarinos históricos são cuidadosamente expostos, olhar os restaurantes e bares imponentes e impecavelmente mantidos (ambos com vistas privilegiadas para a Covent Garden Piazza) seu humor é automaticamente alterado para o “modo artístico”.

Para mim, a experiência foi duplamente rica. Primeiro, porque fui assistir a um dos meus ballets preferidos, La Bayadère. Segundo, porque foi minha primeira ida ao Covent Garden para prestigiar a maior companhia de dança do mundo. Mas o principal foi a surpresa gratificante de assistir Roberta Marquez, uma brasileira, como protagonista.

A história do ballet

La Bayadère, ballet clássico de três atos, foi provavelmente uma das produções mais aguardadas da estação, a única que estreou já esgotada. O enredo se passa na Índia e conta a história do amor trágico entre a dançarina do templo (significado de bayadère), Nikyia, e o guerreiro Solor. Esse romance é testado logo no primeiro ato, quando o Rajá decide casar Solor com sua filha, a princesa Gamzatti, fazendo com que ele quebre a jura de amor eterno, feito sob o fogo sagrado, a Nikyia.

Marianela Nuñez como Gamzatti
Marianela Nuñez como Gamzatti

Os papéis principais foram para Roberta Marquez (que substituiu Alina Cojocaru), e Federico Bonelli, enquanto Gamzatti foi interpretada pela nova queridinha do Royal, Marianela Nuñez.

Apesar de ser uma história relativamente complicada de se seguir, que envolve gurus, vingança, profecias e morte, os detalhes não são tão importantes. “Você pode não ter ideia do que está se passando no palco e ainda assim achar lindo”, disse um senhor na plateia. Colocação deveras pertinente.

A performance

Essa foi a primeira vez que Roberta dançou La Bayadère com Bonelli, e os dois não tiveram muito tempo para ensaiar.  Infelizmente, isso ficou claro. O casal teve dificuldade para encontrar harmonia nas primeiras cenas, e Roberta hesitou muitas vezes, parecendo insegura em relação a seu novo partner. Mais para frente eles pareceram relaxar, mas ainda assim a dança dos dois em nada se compara com a química de Roberta com Steven McRae, com quem ela normalmente divide o palco, ou a intimidade que Bonelli e Marianela mostraram no pas d’action de Gamzatti e Solor.

Ainda assim, Roberta apresentou uma Nikyia bastante expressiva e emocionada. Toda a hesitação das primeiras cenas foi perdoada no solo de Nikyia, quando Roberta, em equilíbrio, desenvolveu o retirée para o arabesque, onde se manteve num balance lindamente controlado, só mudando de posição para seguir a música. Duas vezes. Isso não é algo que muitas bailarinas profissionais consigam fazer em uma carreira inteira, muito menos no palco.

Marianela brilhou como a má e elegante princesa Gamzatti, que tenta roubar o amor de Solor. Apesar dela também interpretar Nikyia em algumas apresentações de La Bayadère, bem como papéis principais em outras produções, é em personagens como Gamzatti e Fada Lilás, da Bela Adormecida, que ela mostra o que tem de melhor. As coreografias exigem técnica afiada, suavidade e controle, algumas das melhores características dessa bailarina. Quando interpreta personagens muito emotivos (como Nikyia e Odette do Lago dos Cisnes, por exemplo), Marianela tende a pesar um pouco na expressividade.

Corpo de baile, a estrela d'O Reino das Sombras
Corpo de baile, a estrela d’O Reino das Sombras

Já no segundo ato, O Reino das Sombras, a produção encontrou a harmonia e a manteve até o último ato, O Templo. A grande estrela do Reino das Sombras foi o corpo de baile, perfeitamente ensaiado – as bailarinas provavelmente respiravam ao mesmo tempo.

Bonelli teve a chance de mostrar seu lado artístico no terceiro ato (quando Solor alucina vendo o fantasma de Nikyia) e ele o fez muito bem. No geral, Bonelli apresentou um Solor elegante, gracioso e até delicado para um guerreiro, bem diferente da versão famosa de Carlos Acosta (bailarino principal que reveza o papel com Bonelli), bastante forte e masculina.

Mais detalhes

No geral, a versão do Royal Ballet de La Bayadère, coreografada pela icônica Natalia Makarova, conseguiu emocionar o público e envolvê-lo na tragédia indiana.

“Apesar de ser um enredo dramático, você sai da sala com o humor leve, se sentindo bem consigo mesmo. Essa é uma coisa que o ballet faz por você que a ópera não faz”, disse, mais uma vez, o senhor na plateia. E, de novo, eu não poderia concordar mais.

Fotos: Royal Opera House

*Post originalmente publicado no blog Revista Pulso em 26/04/2013. Para ver, clique aqui

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