Ed Cruz: “O Balé Folclórico da Bahia abriu minha cabeça”

Foto: arquivo pessoal
Ed é formado em ballet clássico, contemporâneo e afro

Talvez por ter nascido em Salvador, na Bahia, o bailarino Ednei Cruz tem formação bem eclética: seu currículo soma ballet clássico, contemporâneo e afro. Aos 23 anos, Ed se despede do Balé Folclórico da Bahia (BFB) para realizar o sonho de dançar fora do país: em janeiro, ele ingressa na Alvin Ailey American Dance Theater, em Nova York, nos Estados Unidos, e vai se tornar mais um dançarino brasileiro a tentar reconhecimento em companhias internacionais. Apesar de ter estudado apenas no Brasil, Ed se apresentou em vários palcos do mundo pelo BFB, e sabe bem o que é um teatro cheio. Além disso, ele diz que a companhia dá um ‘empurrãozinho’ para que os bailarinos da casa saiam do ninho – e isso, somado a fatores sociais e profissionais, fez com que o bailarino remodelasse sua visão do balé folclórico e da própria dança. Confira abaixo a entrevista completa!

Você tem uma formação muito ampla: ballet clássico, contemporâneo e afro. Com qual se identifica mais?

Antigamente eu me encontrava mais no clássico. Mas hoje, no moderno e no afro eu me sinto mais livre para fazer o que eu quero. Dá para colocar mais sentimento, mais expressão no movimento, sem se preocupar tanto com a técnica.

O Balé Folclórico resolveu ‘esticar’ o final de temporada em Salvador, que inicialmente tinha sido em 4 de setembro. Curiosamente, a procura por ingressos na cidade da companhia nunca foi muito forte. Isso mudou?

Depois desse dia 4 de setembro, quando terminamos inicialmente a temporada no Teatro Castro Alves, ficamos muito surpresos com a venda de ingressos, foi muita gente diferente do público que sempre ia. Normalmente iam bailarinos amigos nossos, gente do meio da dança daqui da Bahia que gostava e ia prestigiar. Agora, pessoas que entendem do afro passaram a assistir também, gente que vive a cultura. Antes não tínhamos muito público, o baiano não queria nos ver dançar. E isso está mudando. Por isso que esses dois dias extras foram colocados. Muita gente tentou ir na primeira data e não conseguiu. Foi uma surpresa maravilhosa.

Foto: Balé Folclórico da Bahia
“Herança Sagrada, a Corte de Oxalá”, do BFB

Tem algum repertório ou montagem que gostaria de dançar?

Tem, sim. Revelations, que é do repertório do próprio Alvin Ailey. Ganhei uma bolsa de estudos pra dançar lá em janeiro e espero que esse repertório esteja incluído, porque sou apaixonado por ele.

E como você conseguiu entrar na Alvin Ailey?

Primeiro eu mandei um vídeo e consegui bolsa para o curso de verão (que aconteceu em julho). Normalmente, para entrar na companhia, tem que fazer audição, mas, como eu fiz o curso, ganhei a bolsa. Era até para eu ter ido em setembro, mas, por conta dos custos, eu consegui adiar para janeiro do ano que vem.

Você sempre quis ir para o exterior?

Dançar fora do país sempre foi um desejo meu. Quando entrei no Balé Folclórico foi para isso. Eu sinto até vergonha em dizer, mas eu não conhecia a companhia, só fiz audição porque sabia que o Balé fazia turnês internacionais. E, por sorte, eles têm esse foco de formar bailarinos pra fora. Quando entrei eu tinha uma mentalidade totalmente diferente. Eu tirei muita coisa boa na questão artística e pessoal. Coisas como a forma de você se vestir, como se portar, o jeito de falar com os bailarinos, com as pessoas… Abriu minha cabeça. Isso é maravilhoso.

Tem algo que você acha que dê certo para todos os tipos de dança?

Indiscutivelmente, o ballet clássico. Para conseguir fazer os passos com facilidade o clássico é indispensável, porque é a base de tudo. Antes de eu chegar no Balé Folclórico eu era só clássico, e lá é tudo diferente. A movimentação é diferente, a respiração é diferente, o sentimento… Não acho que exista alguma coisa que dê certo em todas as danças, porque cada uma é muito diferente da outra. O clássico tem o rigor da técnica, o afro é mais condicionamento e explosão, o contemporâneo é uma movimentação mais fluida…

Qual é a sua maior inspiração?

Desmond Richardson, da Complexions Contemporary Ballet – e ex-bailarino da Alvin Ailey. Logo que comecei a dançar eu pensei ‘eu quero ser igual a esse cara’, sabe? Então eu fui em frente, fiz audições e comecei a dançar profissionalmente. Fui crescendo até chegar onde cheguei.

  • O Balé Folclórico da Bahia encerra nos dias 24 e 25 de outubro a temporada de “Herança Sagrada: a corte de Oxalá”, no Teatro Castro Alves (Salvador). Os ingressos estão esgotados!
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